3.17.2013

A tão sonhada morada portuguesa.

Tenho que correr com isso das primeiras impressões. Já tive tantas outras que é capaz de perder algumas pelo caminho, mas vamo que vamo.

Nossos primeiros dias aqui foram para ficar por conta de encontrar uma morada portuguesa. Fomos visitar uns nove apartamentos em três dias, uma maratona. Sobe e desce ladeiras, sobe e desce escadarias, pega metro, troca de metro, pega autocarro, enfim, uma loucura. Os apartamentos aqui são bem diferentes: grande parte deles não tem janela em todos os cômodos, algumas escadarias dos prédios são bem estranhas e irregulares, elevador é só para os abençoados, box no banheiro também é um artigo um pouco raro, eles não conhecem o bom e velho TANQUE, nem o bom e velho RALO. 

Tirando essas esquisitices comuns à maioria dos apartamentos por aqui, alguns tem ainda mais esquisitices: muita umidade, pouca luz, banheiro apertado. Os apartamentos mais esquisitos que visitamos foram os do Bairro Alto (o bairro que falei no post anterior e comparei com a Savassi de BH), pois eram muito antigos, sem reforma, bem umas espeluncas. Além de muito esquisitos eram os mais caros por conta da localização. Boa parte dos intercambistas vem para cá procurando a farra do Bairro Alto, poder beber e sair de segunda a segunda sem precisar preocupar em pegar ônibus depois da balada. Essa vida boêmia faz com que o aluguel das espeluncas do Bairro Alto custe por volta de 800 euros o mês.

Logo desistimos do Bairro Alto. Pra mim não foi assim tão difícil, pois definitivamente não vim aqui pra virar um party animal só porque estou na Europa. Não sou um bichinho assustado na toca, mas também não sou uma pessoa viciada e sedenta por beber, dançar, sair, etc. Às vezes é bom, dá vontade, mas não precisa ser sempre. Logo me convenci de que posso e preciso respeitar meus limites e as vontades do meu corpo e coração. Ser intercambista não é só ter ânimo pra sair todas as noites, e não sair todas as noites pras baladas não vai fazer da minha viagem um desperdício.

Descartando o Bairro Alto, fomos olhar apartamentos em bairros zonas mais residenciais e centrais. Escolhemos um apartamento na freguesia de Arroios e tenho quase certeza de que fizemos a melhor escolha pra ter uma vida legal por aqui. O apartamento tem suas esquisitices: os quartos não tem janela, não tem box no banheiro, nem elevador, nem tanque, nem ralos. Entretanto, temos um terraço bem gostoso pra fazer uns grelhados e o apartamento como um todo é bem espaçoso e iluminado. O ponto alto mesmo é o quão bem servidos estamos de transporte público e estabelecimentos comerciais. Encontramos tudo o que precisamos comprar por aqui, tudo mesmo, e conseguimos sair daqui pra qualquer lugar sem muito esforço. Pertinho de casa temos as linhas verde e vermelha do metro, e as carreiras de autocarro que passam por aqui nos levam pra a maioria dos lugares que não dá pra ir de metro. E o melhor é: tudo isso por 500 euros. Como boa filha de Marcia e sobrinha de Érika e Júlio, consegui negociar o preço e abaixar 100 euros na proposta inicial da proprietária. Iamos pagar 600, que já era um preço relativamente bom, mas 500 ficou ainda melhor. O Rodrigo ficou com o quarto individual pagando 200 euros, e eu e a Lu estamos dividindo o outro quarto pagando 150 euros cada.

Devidamente instalados pudemos parar para nos preocupar com o frio. E ele é o último assunto que vou tratar nesse post. É muito frio, gente, muito mesmo. Sei que é clichê, previsível e quase chato o que vou dizer, mas é a grande verdade: brasileiros não sabem o que é sentir frio. É coisa de doido de tão diferente, vai entrando dentro da gente. Ai no Brasil eu sempre dizia: "Prefiro inverno porque é só colocar casaco, tomar uma coisa quentinha que passa. Verão é ruim porque não importa o que você faça, você está sempre morrendo de calor.". Essa máxima não vale aqui no inverno da Europa, pois não importa o que você faça, você está sempre morrendo de frio. 

Lisboa não neva, mas o vento forte constante e a companhia do rio Tejo não ajudam em nada para amenizar o congelamento dos brasileiros. A verdade é que estou louca pra chegada da Primavera. Os 'tugas já falam dela há quase um mês: as vitrines montras já mostram looks primaveris, as propagandas falam de flores, e já ouvi vários "bom que agora já está esquentando". Só que ainda continuo morrendo de frio e bem enjoada de ter que andar com mil camadas de roupas e casacos pesados e volumosos por ai.

Isso da primavera estar chegando só começou a fazer um pouco de sentido essa semana: já ouvi dois passarinhos cantando de manhã (em dias diferentes). Se eu tivesse conseguido ver onde eles estavam, teria dado uma medalha de honra pela bravura e coragem. Já vi alguns insetos se atrevendo também a iniciar o preparatório para o próximo inverno. Ontem vi três florzinhas roxas brilhando como estrelinhas em um emaranhado de galhos secos. Que venha a primavera, e até o próximo post!

3.10.2013

Estou!

Este é o primeiro post - já muito atrasado e criado um pouco à força - do meu diário de bordo em Lisboa. A ideia é contar um pouco do que tenho visto, vivido e sentido por aqui. Espero, para o bem da minha memória de peixe, conseguir manter os posts até o fim do intercâmbio. Para dar uma breve contextualizada para um possível-curioso-leitor-anônimo, preciso dizer que sou aluna de Ciências do Estado na Universidade Federal de Minas Gerais e fui selecionada para um programa de intercâmbio em Lisboa, na Universidade Técnica de Lisboa, por seis longos (ou não) meses. Por uma benção divina, não fui a única selecionada: junto comigo vieram a Luísa e o Rodrigo que, sem dúvidas, serão personagens importantes das minhas histórias por aqui.

Ah, só pra explicar o título do post: é assim que os portugueses dizem "alô" quando atendem ao telefone/interfone (aguardem por mais um milhão de exemplos das diferenças entre o português de Portugal e o brasileiro). É isso, mãos a obra!

Chegamos em Lisboa há pouco mais de um mês, no dia 06 de fevereiro. Nossa chegada foi tranquila e muito menos conturbada do que eu pensei que seria. Ainda no Brasil conseguimos negociar para ficar hospedados na casa de colegas que estavam aqui terminando o intercâmbio que haviam começado no segundo semestre de 2012. Por 9 euros/dia ficamos hospedados no coração boêmio de Lisboa: o bairro alto que, em uma comparação meio besta, é como se fosse a Savassi de Belo Horizonte. Um lugar que, além de concentrar boa parte da vida noturna de Lisboa, é muito acessível e bem servido de transportes, o que nos foi muito útil na maratona em busca da casa perfeita. Outra vantagem de ter ficado por lá foi ter recebido a assistência da Fabíola (menina que dividia a casa com as nossas colegas do Brasil), que nos deu muitos e bons conselhos. O melhor dos conselhos foi a orientação de como solicitar o cartão Viva Lisboa, que é o passe mensal de ônibus autocarro e metrô metro daqui. Com o Viva Lisboa podemos fazer uso ILIMITADO de toda a rede de transportes da Carris (a BHTrans de Lisboa. Mais uma comparação meio besta e, dessa vez, muito grosseira, mas didaticamente útil hahaha): posso pegar quantos autocarros quiser, quantos metros quiser, quantos elétricos (são esses 'bondinhos' super simpáticos da foto do template do blog) quiser, e pago por isso apenas 35 euros por mês.

Taí a primeira maravilha de Lisboa: transporte público. Pobres de nós belo horizontinos e, nesse caso, até me arrisco falar aqui como todo cidadão brasileiro: nós definitivamente não sabemos o que é um sistema eficiente de transporte público. É coisa linda de Deus, é o que te faz pensar 30 vezes antes de comprar um carro e ter que lidar com as suas respectivas dores de cabeça. As linhas de metro cobrem uma enorme parte da cidade, e as linhas de ônibus te levam pra todos os lugares com muita pontualidade e conforto. Pra vocês terem uma noção, praticamente todos os pontos tem um visor que informa em quanto tempo chegará a próxima carreira de cada linha que passa por aquele determinado ponto. Quando não se encontra esse visor, há, em cada ponto de ônibus, um número para o qual podemos mandar um SMS do celular e recebemos, instantaneamente, uma resposta com as linhas de ônibus e o tempo que demorarão para chegar naquele ponto. O que significa que antes de sair de casa pra ir pra faculdade, por exemplo, posso mandar uma mensagem pro meu ponto para saber exatamente o tempo que o ônibus levará para chegar. O mais incrível é mesmo o preço que o cidadão lisboeta paga pra ter tudo isso. Como já disse ali em cima, o passe mensal custa 35 euros, o que seria equivalente a aproximadamente R$101,00. Com R$101,00 por mês, eu conseguiria pegar, em Belo Horizonte, 36 ônibus (a passagem está custando R$2,80). Para ir e voltar da faculdade, de segunda a sexta, eu precisaria de pegar 40 ônibus, ou seja, eu não conseguiria ir para a aula todos os dias. E isso porque moro a 4km da faculdade e só preciso pegar um ônibus para chegar até lá, imagina a situação de quem precisa pegar 2 ônibus, né. A realidade do cidadão de Lisboa, nesse ponto, está mesmo muito distante da nossa realidade ai no Brasil. Só não posso ficar mal acostumada, ops, tarde demais.

Não quero que esse post fique muito grande, mas está quase inevitável. Vou tentar dividir essas primeiras impressões em dois posts, acho que pode ser melhor. Para terminar por aqui preciso dizer sobre a beleza de Lisboa: roubou o posto do Rio de Janeiro e de Montevidéu no meu ranking de cidades bonitas e queridas. Lisboa é uma cidade muito linda, a mais linda e charmosa que já vi passar. É até um pouco difícil de explicar qualéquié a da beleza daqui, mas isso tá escancarado nas fotos que venho tirando. A arquitetura antiga, as praças que brotam em quase toda curva que se faz, o charme das ladeiras, das sobreposições de construções, das linhas e fios de passagem do elétrico, dos pombos e gaivotas tudo-junto-e-misturado, dos jogos de luz e sombra que o sol e as nuvens fazem por aqui, enfim. É muito pobre explicar isso com palavras e imagens.

Lisboa tem uma beleza que se vê com os olhos e se sente com o corpo. Coisa de doido! É uma ginga (bem diferente da brasileira, é verdade) gostosa, discreta, um sonzinho abafado, um cheirinho de sopa, uns pasteis de belém, uma escadaria aqui, uns bigodes dos Manuéis, os cabelos bem ventados (por favor, me concedam essa licença poética) e indiscretos, uma calçada portuguesa ali, um rio tejo acolá, e praças, praças e mais praças. É bonita demais mesmo, bonita pra caralho e pronto acabô.

Até a próxima e, como dizem os 'tugas, beijinhos!

ps: Pedro, obrigada pelo template, amigo. Você sabe que isso é quase um rito de preservação da nossa amizade, né? risos.