4.04.2013

Aquele sonho de ver a neve.


Precisou de um pouco de primavera pra tomarmos coragem para ir ver a neve, mas fato é que tomamos. O caso todo foi o seguinte: Ruth é uma amiga da minha tia Érika que está morando em Rapoula, uma das cidades mais altas de Portugal, que fica a menos de 1h de distância da Serra da Estrela, e a 4h30min de Lisboa. Desde que chegamos por aqui eu e a Lu estamos tentando marcar de ir visitar a Ruth e, depois de muito fazer e desfazer planos, finalmente nos acertamos e combinamos que o encontro com ela (e com a neve) seria no final de semana da Páscoa.

A ideia era fazer a viagem de trem, mas as passagens ficavam o dobro do preço da passagem de ônibus. Optamos então pelo ônibus da Rede Nacional de Expressos, pagando 28 euros pelos trechos de ida e volta. A passagem de ida estava marcada para as 8h da manhã de sexta-feira, dia 29/03, e por pouquíssimos minutos não perdemos o ônibus. Saimos de casa atrasadas às 7:30 tinhamos que andar até a estação Alameda de metrô e descer duas estações à frente para pegar a conexão com a linha azul, em São Sebastião. De São Sebastião tinhamos que seguir até a estação do Jardim Zoológico, onde ficava o terminal rodoviário.

Na primeira parte do trajeto demos sorte: o metrô chegou junto com a gente na Alameda. O problema veio quando chegamos em São Sebastião, às 7:42, e assim que pisamos na escada para a linha azul ouvimos as portas do metrô se fechando. Em dias normais ainda teríamos alguma chance, mas como era feriado, o próximo metrô demoraria 9 minutos pra chegar e seria tarde demais para pegar o ônibus das 8h. Ou esperávamos o metrô contando com algum atraso do ônibus para sair do terminal rodoviário, ou tinhamos que pegar um táxi. É quase um crime pegar táxi em Lisboa com a qualidade do transporte público coletivo que temos aqui, mas não teve outro jeito. Como o terminal não era muito longe de São Sebastião, e pra evitar a fadiga de perder a viagem, pegamos um táxi e chegamos lá em menos de 5 minutos pagando 4,40 euros. 

Foi tanta correria que chegamos no ônibus super suadas e ofegantes, mas a viagem foi muito agradável e compensou o susto. O ônibus era relativamente confortável, nada muito fora do comum, e tinha internet wifi gratuita disponível para os passageiros. Assistimos a um filme, a alguns episódios de Grey's Anatomy, demos uma cochilada e às 12h30min estávamos em Guarda, nosso destino final com aquele ônibus. Na rodoviária de Guarda já tinhamos a Ruth e o Joaquim, seu gajo português, a nossa espera para seguirmos para Rapoula de carro. Em 15min estávamos já tomando um bom cálice de vinho do Porto para abrir o apetite para o almoço. Ruth tinha preparado pescada com camarão, arroz à grega, e de sobremesa mousse de chocolate. Minha barriga logo agradeceu a viagem, estava tudo uma delícia. Depois do almoço eu e a Lu fomos dar uma voltinha perto da casa para ver o que encontrávamos por ali. Não encontramos nada, nada mesmo. A cidade é minúscula, não tem nenhum tipo de comércio ou atração turística. Logo voltamos pra dentro da casa, vimos um pouco de tv, conversamos, depois comemos de novo, tv, conversa, comida, comida e boa noite.

Sábado era o grande dia. Acordamos às 9:30, tomamos um baita de um café da manhã, e os planos do Joaquim era de sairmos às 11h em direção à Serra da Estrela. Os planos eram ótimos, exceto pelo fato de que entre 9:30 e 11h, Joaquim fazia questão de que acontecesse um almoço. Tentamos de toda forma convencê-lo de que não precisava, que tinhamos acabado de comer, que comíamos qualquer coisa por lá quando a fome apertasse, mas ele só dizia: "é preciso almoçar. Depois ficarão com fome". Como fazer caber um almoço depois de um café da manhã reforçado? Como flexibilizar os hábitos de um português do interior? Não houve brasilidade suficiente para fazê-lo mudar de ideia. O máximo que conseguimos foi adiar a saída das 11h para às 12h, e às 11:30h nos sentamos para almoçar. O cardápio foi mais uma vez delicioso: bacalhau com grão de bico e sopa portuguesa de batata, cenoura, cebola e couve. Com os corações aquecidos, as barrigas cheias e um português-cabeça-dura satisfeito, pegamos a estrada pra Serra da Estrela.

A estrada estava linda com a primavera querendo chegar em todos os cantos. Joaquim nos ensinou que as árvores baixinhas com a flor rosa eram árvores de pêssego, as outras um pouco maiores eram macieiras, as pequeninas com tronco grosso eram as parreiras, e as oliveiras tinham folhas já bem fartas e verdinhas. A subida para a serra foi um pouco assustadora: estrada cheia, muito apertada, com curvas bem sinuosas. A 2000m de altitude estava lá a neve: branquinha e gelada, muito gelada.

Ruth e Joaquim não se arriscaram muito, ficaram de longe olhando, mas eu e a Lu fomos logo nos jogando no meio da bichinha. Tiramos muitas fotos, fizemos um boneco de neve, guerra de bolas de neve, tudo como manda o protocolo. Ficamos lá um pouco menos de 1h, tempo suficiente para considerar a neve divertida. Acho que muito mais que isso já não seria tão divertido, a não ser que tivessemos algum treinó, ou qualquer coisa pra escorregar por lá.

Saimos de lá e fomos dar uma volta em Covilhã, uma cidadezinha muito charmosa que fica bem ao pé da serra. Paramos no shopping, fizemos um lanche e seguimos pra Rapoula. Chegamos, jantamos e dormimos. O plano para o domingo era fazer algum passeio logo cedo, mas o tempo não ajudou. O dia amanheceu frio, feio, chuvoso e acabamos ficando em casa mesmo. Às 19:30 eu e a Lu embarcamos de volta para Lisboa. O ônibus da volta era considerávelmente melhor que o da ida: bancos de couro, luzes azuis tipo de avião no corrdor, música ambiente, extremamente confortável. 

Entretanto presico dizer que nunca amei e odiei tanto um banco de couro em toda minha vida, o motivo vocês já vão entender. Entramos no ônibus, achamos tudo muito lindo e, passado o frenesi, comecei a me sentir um pouco mal. Tentei ignorar, porque nunca fui de ter problemas de enjoo em viagens, salvo raras exceções. Só que aquilo foi ficando muito forte, muito forte, muito..... blergh. É, vomitei no ônibus-avião-com-banco-de-couro.  Foi horrível porque, além do simples fato de ter passado mal no meio da viagem, a porcaria do ônibus tinha banco de couro, mas não tinha nenhum banheiro pra contar história. Logo descobri como se sentem aquelas pessoas fedidinhas que entram no metrô e percebem todo mundo olhando pro lado, fungando o nariz, tentando entender de onde vem o mau cheiro, enfim. Após o ocorrido, levaria mais uma meia-hora para chegar na próxima cidade em que o ônibus faria uma parada. Foram os 30 minutos mais longos de toda minha existência (ok, não é pra tanto), mas uma hora eles acabaram e o ônibus finalmente parou por 5, veja bem, c-i-n-c-o minutos. Foi o tempo de correr no banheiro horrível da rodoviária de Castelo Branco pra trocar de roupa e tomar um banho de gato com lenços umedecidos (benditos sejam esses lenços que agora me acompanharão para todos os lugares do mundo), e voltar para o ônibus com um pouquinho mais de dignidade.

Então, explicando aquilo de eu ter amado e odiado os bancos de couro: amei porque bastou uma passada de lenço umedecido e o meu banco estava limpo e cheiroso de novo. Odiei porque é no mínimo estranho um ônibus, que vai te guiar por uma viagem de 4h30min, não ter banheiro e fazer apenas uma parada de 5 minutos no meio do caminho. É quase inacreditável, mas, por conta desse meu super imprevisto, senti saudades dos banheiros dos ônibus ai do Brasil. Talvez mais valha um banheiro fedorento na mão, do que um banco de couro vomi****, se é que vocês me entendem.

Apesar do marasmo da vida rural de Rapoula, e do trauma da volta pra Lisboa, a viagem foi muito gostosa. As delícias culinárias da Ruth, o encontro com a neve, as belezas que vimos estrada a fora, e o carinho com que fomos recebidas fizeram tudo valer à pena.

4.02.2013

A primeira viagem em Portugal: Fátima e Óbidos.


Não vai dar mesmo preu contar tudo o que já passei por aqui. Enrolada do tanto que estou, se eu não começar logo a postar em um tempo mais próximo do tempo real, vou me perder para sempre. Bem trágico assim mesmo, hahaha. Vou voltar no tempo só mais um pouco para contar algo que não posso deixar passar em branco, e o próximo post já sera sobre a minha viagem à Serra da Estrela na semana santa.

O que quero contar é a nossa primeira road trip por Portugal. Primeiro preciso apresentar mais dois personagens das minhas aventuras por aqui: a Fabiana - uma paulista -, e o Lucas - um nordestino arretado. Eu, a Lu, o Rodrigo e os novos personagens alugamos um carro e nos juntamos para uma viagem de um dia para Fátima e Óbidos. 

Saímos de Lisboa e pegamos a estrada para Fátima. Foram 127km de uma estrada muito agradável até chegarmos ao nosso primeiro destino. Chegando em Fátima logo percebi que o Santuário de Nossa Senhora de Fátima era mesmo o único responsável pelo turismo na cidade. Não que a cidade seja feia, é bem bonitinha e simpática, mas não tem nada de mais.

O Santuário é bonito e tinha uma energia bem boa, mas o passeio tem um significado mais real e especial mesmo para pessoas muito católicas. Gastamos mais tempo em Fátima escolhendo os presentes para levar para a família, mil e um terços, medalhinhas, etc, etc. Ficamos por volta de 2h30min em Fátima e entramos no carro para seguir viagem para Óbidos. A distância entre as duas cidades é de 88km, levamos mais ou menos 1h para chegar ao nosso segundo destino.

A atração principal de Óbidos naquele final de semana era o Festival Internacional de Chocolates. Era o penúltimo dia do Festival e a cidade estava bastante cheia. Estacionamos o carro e fomos caminhando pela rua principal em direção à entrada do evento e, se não fosse a chuva e a quantidade de pessoas tumultuando o caminho, tudo teria sido muito agradável. A cidade é muito linda, muito mesmo. Toda com ruas de pedra, com bequinhos bem charmosos, um artesanato local muito bacana. Seria uma mistura de Ouro Preto e Tiradentes, só que em miniatura e com um lindo e enorme Castelo abraçando a cidade.

No caminho para o Festival, decidimos almoçar em algum lugar e, depois de muito procurar por algum preço que coubesse nos nossos bolsos de intercambistas, encontramos um bar medieval bem interessante em um dos becos da cidade. Tirando o péssimo atendimento, foi um bom achado, pois a comida estava boa e o lugar era muito diferente: tudo de madeira e pedras, com uma luz bem baixa, com um tronco de árvore gigante atravessando o bar, as mesas e cadeiras bem baixinhas, me senti quase um hobbit ali.

Saímos de lá e finalmente chegamos ao Festival pelo qual pagamos 7 euros para entrar. Foi uma das maiores decepções de toda a minha vida: o chocolate vendido era horrível, havia a promessa de super esculturas de chocolate que não passavam de uma pequena sala com algumas esculturas bacaninhas. E o pior de tudo foi o fato de termos que pagar 7 euros apenas pra entrar lá dentro e ainda ter que pagar por tudo que quiséssemos consumir. Definitivamente o preço da entrada estava muito desproporcional ao que o Festival estava oferecendo. Se a entrada fosse 3 ou 4 euros, eu não teria achado tão ruim de pagar. 

Apesar disso, foi divertido e valeu a experiência, pois a companhia era muito boa e Óbidos realmente mereceu a visita. Não posso deixar de falar da danada da Ginjinha de Óbidos, um licor típico da região, servida no copinho de chocolate: uma delícia. Vou ver se levo umas garrafas pra vocês provarem ai no Brasil.

No total a viagem saiu a 18 euros para cada um, e isso porque as estradas portuguesas estão cheias de portagens (os pedágios daí do Brasil) que encarecem um tanto as road trips. Ainda assim, valeu à pena o preço, pois algumas excursões de Lisboa para o Festival em Óbidos, por exemplo, estavam cobrando por volta de 23 euros. Com 18 euros conhecemos duas cidades e ainda fizemos nosso roteiro como bem entendemos.

3.17.2013

A tão sonhada morada portuguesa.

Tenho que correr com isso das primeiras impressões. Já tive tantas outras que é capaz de perder algumas pelo caminho, mas vamo que vamo.

Nossos primeiros dias aqui foram para ficar por conta de encontrar uma morada portuguesa. Fomos visitar uns nove apartamentos em três dias, uma maratona. Sobe e desce ladeiras, sobe e desce escadarias, pega metro, troca de metro, pega autocarro, enfim, uma loucura. Os apartamentos aqui são bem diferentes: grande parte deles não tem janela em todos os cômodos, algumas escadarias dos prédios são bem estranhas e irregulares, elevador é só para os abençoados, box no banheiro também é um artigo um pouco raro, eles não conhecem o bom e velho TANQUE, nem o bom e velho RALO. 

Tirando essas esquisitices comuns à maioria dos apartamentos por aqui, alguns tem ainda mais esquisitices: muita umidade, pouca luz, banheiro apertado. Os apartamentos mais esquisitos que visitamos foram os do Bairro Alto (o bairro que falei no post anterior e comparei com a Savassi de BH), pois eram muito antigos, sem reforma, bem umas espeluncas. Além de muito esquisitos eram os mais caros por conta da localização. Boa parte dos intercambistas vem para cá procurando a farra do Bairro Alto, poder beber e sair de segunda a segunda sem precisar preocupar em pegar ônibus depois da balada. Essa vida boêmia faz com que o aluguel das espeluncas do Bairro Alto custe por volta de 800 euros o mês.

Logo desistimos do Bairro Alto. Pra mim não foi assim tão difícil, pois definitivamente não vim aqui pra virar um party animal só porque estou na Europa. Não sou um bichinho assustado na toca, mas também não sou uma pessoa viciada e sedenta por beber, dançar, sair, etc. Às vezes é bom, dá vontade, mas não precisa ser sempre. Logo me convenci de que posso e preciso respeitar meus limites e as vontades do meu corpo e coração. Ser intercambista não é só ter ânimo pra sair todas as noites, e não sair todas as noites pras baladas não vai fazer da minha viagem um desperdício.

Descartando o Bairro Alto, fomos olhar apartamentos em bairros zonas mais residenciais e centrais. Escolhemos um apartamento na freguesia de Arroios e tenho quase certeza de que fizemos a melhor escolha pra ter uma vida legal por aqui. O apartamento tem suas esquisitices: os quartos não tem janela, não tem box no banheiro, nem elevador, nem tanque, nem ralos. Entretanto, temos um terraço bem gostoso pra fazer uns grelhados e o apartamento como um todo é bem espaçoso e iluminado. O ponto alto mesmo é o quão bem servidos estamos de transporte público e estabelecimentos comerciais. Encontramos tudo o que precisamos comprar por aqui, tudo mesmo, e conseguimos sair daqui pra qualquer lugar sem muito esforço. Pertinho de casa temos as linhas verde e vermelha do metro, e as carreiras de autocarro que passam por aqui nos levam pra a maioria dos lugares que não dá pra ir de metro. E o melhor é: tudo isso por 500 euros. Como boa filha de Marcia e sobrinha de Érika e Júlio, consegui negociar o preço e abaixar 100 euros na proposta inicial da proprietária. Iamos pagar 600, que já era um preço relativamente bom, mas 500 ficou ainda melhor. O Rodrigo ficou com o quarto individual pagando 200 euros, e eu e a Lu estamos dividindo o outro quarto pagando 150 euros cada.

Devidamente instalados pudemos parar para nos preocupar com o frio. E ele é o último assunto que vou tratar nesse post. É muito frio, gente, muito mesmo. Sei que é clichê, previsível e quase chato o que vou dizer, mas é a grande verdade: brasileiros não sabem o que é sentir frio. É coisa de doido de tão diferente, vai entrando dentro da gente. Ai no Brasil eu sempre dizia: "Prefiro inverno porque é só colocar casaco, tomar uma coisa quentinha que passa. Verão é ruim porque não importa o que você faça, você está sempre morrendo de calor.". Essa máxima não vale aqui no inverno da Europa, pois não importa o que você faça, você está sempre morrendo de frio. 

Lisboa não neva, mas o vento forte constante e a companhia do rio Tejo não ajudam em nada para amenizar o congelamento dos brasileiros. A verdade é que estou louca pra chegada da Primavera. Os 'tugas já falam dela há quase um mês: as vitrines montras já mostram looks primaveris, as propagandas falam de flores, e já ouvi vários "bom que agora já está esquentando". Só que ainda continuo morrendo de frio e bem enjoada de ter que andar com mil camadas de roupas e casacos pesados e volumosos por ai.

Isso da primavera estar chegando só começou a fazer um pouco de sentido essa semana: já ouvi dois passarinhos cantando de manhã (em dias diferentes). Se eu tivesse conseguido ver onde eles estavam, teria dado uma medalha de honra pela bravura e coragem. Já vi alguns insetos se atrevendo também a iniciar o preparatório para o próximo inverno. Ontem vi três florzinhas roxas brilhando como estrelinhas em um emaranhado de galhos secos. Que venha a primavera, e até o próximo post!

3.10.2013

Estou!

Este é o primeiro post - já muito atrasado e criado um pouco à força - do meu diário de bordo em Lisboa. A ideia é contar um pouco do que tenho visto, vivido e sentido por aqui. Espero, para o bem da minha memória de peixe, conseguir manter os posts até o fim do intercâmbio. Para dar uma breve contextualizada para um possível-curioso-leitor-anônimo, preciso dizer que sou aluna de Ciências do Estado na Universidade Federal de Minas Gerais e fui selecionada para um programa de intercâmbio em Lisboa, na Universidade Técnica de Lisboa, por seis longos (ou não) meses. Por uma benção divina, não fui a única selecionada: junto comigo vieram a Luísa e o Rodrigo que, sem dúvidas, serão personagens importantes das minhas histórias por aqui.

Ah, só pra explicar o título do post: é assim que os portugueses dizem "alô" quando atendem ao telefone/interfone (aguardem por mais um milhão de exemplos das diferenças entre o português de Portugal e o brasileiro). É isso, mãos a obra!

Chegamos em Lisboa há pouco mais de um mês, no dia 06 de fevereiro. Nossa chegada foi tranquila e muito menos conturbada do que eu pensei que seria. Ainda no Brasil conseguimos negociar para ficar hospedados na casa de colegas que estavam aqui terminando o intercâmbio que haviam começado no segundo semestre de 2012. Por 9 euros/dia ficamos hospedados no coração boêmio de Lisboa: o bairro alto que, em uma comparação meio besta, é como se fosse a Savassi de Belo Horizonte. Um lugar que, além de concentrar boa parte da vida noturna de Lisboa, é muito acessível e bem servido de transportes, o que nos foi muito útil na maratona em busca da casa perfeita. Outra vantagem de ter ficado por lá foi ter recebido a assistência da Fabíola (menina que dividia a casa com as nossas colegas do Brasil), que nos deu muitos e bons conselhos. O melhor dos conselhos foi a orientação de como solicitar o cartão Viva Lisboa, que é o passe mensal de ônibus autocarro e metrô metro daqui. Com o Viva Lisboa podemos fazer uso ILIMITADO de toda a rede de transportes da Carris (a BHTrans de Lisboa. Mais uma comparação meio besta e, dessa vez, muito grosseira, mas didaticamente útil hahaha): posso pegar quantos autocarros quiser, quantos metros quiser, quantos elétricos (são esses 'bondinhos' super simpáticos da foto do template do blog) quiser, e pago por isso apenas 35 euros por mês.

Taí a primeira maravilha de Lisboa: transporte público. Pobres de nós belo horizontinos e, nesse caso, até me arrisco falar aqui como todo cidadão brasileiro: nós definitivamente não sabemos o que é um sistema eficiente de transporte público. É coisa linda de Deus, é o que te faz pensar 30 vezes antes de comprar um carro e ter que lidar com as suas respectivas dores de cabeça. As linhas de metro cobrem uma enorme parte da cidade, e as linhas de ônibus te levam pra todos os lugares com muita pontualidade e conforto. Pra vocês terem uma noção, praticamente todos os pontos tem um visor que informa em quanto tempo chegará a próxima carreira de cada linha que passa por aquele determinado ponto. Quando não se encontra esse visor, há, em cada ponto de ônibus, um número para o qual podemos mandar um SMS do celular e recebemos, instantaneamente, uma resposta com as linhas de ônibus e o tempo que demorarão para chegar naquele ponto. O que significa que antes de sair de casa pra ir pra faculdade, por exemplo, posso mandar uma mensagem pro meu ponto para saber exatamente o tempo que o ônibus levará para chegar. O mais incrível é mesmo o preço que o cidadão lisboeta paga pra ter tudo isso. Como já disse ali em cima, o passe mensal custa 35 euros, o que seria equivalente a aproximadamente R$101,00. Com R$101,00 por mês, eu conseguiria pegar, em Belo Horizonte, 36 ônibus (a passagem está custando R$2,80). Para ir e voltar da faculdade, de segunda a sexta, eu precisaria de pegar 40 ônibus, ou seja, eu não conseguiria ir para a aula todos os dias. E isso porque moro a 4km da faculdade e só preciso pegar um ônibus para chegar até lá, imagina a situação de quem precisa pegar 2 ônibus, né. A realidade do cidadão de Lisboa, nesse ponto, está mesmo muito distante da nossa realidade ai no Brasil. Só não posso ficar mal acostumada, ops, tarde demais.

Não quero que esse post fique muito grande, mas está quase inevitável. Vou tentar dividir essas primeiras impressões em dois posts, acho que pode ser melhor. Para terminar por aqui preciso dizer sobre a beleza de Lisboa: roubou o posto do Rio de Janeiro e de Montevidéu no meu ranking de cidades bonitas e queridas. Lisboa é uma cidade muito linda, a mais linda e charmosa que já vi passar. É até um pouco difícil de explicar qualéquié a da beleza daqui, mas isso tá escancarado nas fotos que venho tirando. A arquitetura antiga, as praças que brotam em quase toda curva que se faz, o charme das ladeiras, das sobreposições de construções, das linhas e fios de passagem do elétrico, dos pombos e gaivotas tudo-junto-e-misturado, dos jogos de luz e sombra que o sol e as nuvens fazem por aqui, enfim. É muito pobre explicar isso com palavras e imagens.

Lisboa tem uma beleza que se vê com os olhos e se sente com o corpo. Coisa de doido! É uma ginga (bem diferente da brasileira, é verdade) gostosa, discreta, um sonzinho abafado, um cheirinho de sopa, uns pasteis de belém, uma escadaria aqui, uns bigodes dos Manuéis, os cabelos bem ventados (por favor, me concedam essa licença poética) e indiscretos, uma calçada portuguesa ali, um rio tejo acolá, e praças, praças e mais praças. É bonita demais mesmo, bonita pra caralho e pronto acabô.

Até a próxima e, como dizem os 'tugas, beijinhos!

ps: Pedro, obrigada pelo template, amigo. Você sabe que isso é quase um rito de preservação da nossa amizade, né? risos.