Precisou de um pouco de primavera pra tomarmos coragem para ir ver a neve, mas fato é que tomamos. O caso todo foi o seguinte: Ruth é uma amiga da minha tia Érika que está morando em Rapoula, uma das cidades mais altas de Portugal, que fica a menos de 1h de distância da Serra da Estrela, e a 4h30min de Lisboa. Desde que chegamos por aqui eu e a Lu estamos tentando marcar de ir visitar a Ruth e, depois de muito fazer e desfazer planos, finalmente nos acertamos e combinamos que o encontro com ela (e com a neve) seria no final de semana da Páscoa.
A ideia era fazer a viagem de trem, mas as passagens ficavam o dobro do preço da passagem de ônibus. Optamos então pelo ônibus da Rede Nacional de Expressos, pagando 28 euros pelos trechos de ida e volta. A passagem de ida estava marcada para as 8h da manhã de sexta-feira, dia 29/03, e por pouquíssimos minutos não perdemos o ônibus. Saimos de casa atrasadas às 7:30 tinhamos que andar até a estação Alameda de metrô e descer duas estações à frente para pegar a conexão com a linha azul, em São Sebastião. De São Sebastião tinhamos que seguir até a estação do Jardim Zoológico, onde ficava o terminal rodoviário.
Na primeira parte do trajeto demos sorte: o metrô chegou junto com a gente na Alameda. O problema veio quando chegamos em São Sebastião, às 7:42, e assim que pisamos na escada para a linha azul ouvimos as portas do metrô se fechando. Em dias normais ainda teríamos alguma chance, mas como era feriado, o próximo metrô demoraria 9 minutos pra chegar e seria tarde demais para pegar o ônibus das 8h. Ou esperávamos o metrô contando com algum atraso do ônibus para sair do terminal rodoviário, ou tinhamos que pegar um táxi. É quase um crime pegar táxi em Lisboa com a qualidade do transporte público coletivo que temos aqui, mas não teve outro jeito. Como o terminal não era muito longe de São Sebastião, e pra evitar a fadiga de perder a viagem, pegamos um táxi e chegamos lá em menos de 5 minutos pagando 4,40 euros.
Foi tanta correria que chegamos no ônibus super suadas e ofegantes, mas a viagem foi muito agradável e compensou o susto. O ônibus era relativamente confortável, nada muito fora do comum, e tinha internet wifi gratuita disponível para os passageiros. Assistimos a um filme, a alguns episódios de Grey's Anatomy, demos uma cochilada e às 12h30min estávamos em Guarda, nosso destino final com aquele ônibus. Na rodoviária de Guarda já tinhamos a Ruth e o Joaquim, seu gajo português, a nossa espera para seguirmos para Rapoula de carro. Em 15min estávamos já tomando um bom cálice de vinho do Porto para abrir o apetite para o almoço. Ruth tinha preparado pescada com camarão, arroz à grega, e de sobremesa mousse de chocolate. Minha barriga logo agradeceu a viagem, estava tudo uma delícia. Depois do almoço eu e a Lu fomos dar uma voltinha perto da casa para ver o que encontrávamos por ali. Não encontramos nada, nada mesmo. A cidade é minúscula, não tem nenhum tipo de comércio ou atração turística. Logo voltamos pra dentro da casa, vimos um pouco de tv, conversamos, depois comemos de novo, tv, conversa, comida, comida e boa noite.
Sábado era o grande dia. Acordamos às 9:30, tomamos um baita de um café da manhã, e os planos do Joaquim era de sairmos às 11h em direção à Serra da Estrela. Os planos eram ótimos, exceto pelo fato de que entre 9:30 e 11h, Joaquim fazia questão de que acontecesse um almoço. Tentamos de toda forma convencê-lo de que não precisava, que tinhamos acabado de comer, que comíamos qualquer coisa por lá quando a fome apertasse, mas ele só dizia: "é preciso almoçar. Depois ficarão com fome". Como fazer caber um almoço depois de um café da manhã reforçado? Como flexibilizar os hábitos de um português do interior? Não houve brasilidade suficiente para fazê-lo mudar de ideia. O máximo que conseguimos foi adiar a saída das 11h para às 12h, e às 11:30h nos sentamos para almoçar. O cardápio foi mais uma vez delicioso: bacalhau com grão de bico e sopa portuguesa de batata, cenoura, cebola e couve. Com os corações aquecidos, as barrigas cheias e um português-cabeça-dura satisfeito, pegamos a estrada pra Serra da Estrela.
A estrada estava linda com a primavera querendo chegar em todos os cantos. Joaquim nos ensinou que as árvores baixinhas com a flor rosa eram árvores de pêssego, as outras um pouco maiores eram macieiras, as pequeninas com tronco grosso eram as parreiras, e as oliveiras tinham folhas já bem fartas e verdinhas. A subida para a serra foi um pouco assustadora: estrada cheia, muito apertada, com curvas bem sinuosas. A 2000m de altitude estava lá a neve: branquinha e gelada, muito gelada.
Ruth e Joaquim não se arriscaram muito, ficaram de longe olhando, mas eu e a Lu fomos logo nos jogando no meio da bichinha. Tiramos muitas fotos, fizemos um boneco de neve, guerra de bolas de neve, tudo como manda o protocolo. Ficamos lá um pouco menos de 1h, tempo suficiente para considerar a neve divertida. Acho que muito mais que isso já não seria tão divertido, a não ser que tivessemos algum treinó, ou qualquer coisa pra escorregar por lá.
Saimos de lá e fomos dar uma volta em Covilhã, uma cidadezinha muito charmosa que fica bem ao pé da serra. Paramos no shopping, fizemos um lanche e seguimos pra Rapoula. Chegamos, jantamos e dormimos. O plano para o domingo era fazer algum passeio logo cedo, mas o tempo não ajudou. O dia amanheceu frio, feio, chuvoso e acabamos ficando em casa mesmo. Às 19:30 eu e a Lu embarcamos de volta para Lisboa. O ônibus da volta era considerávelmente melhor que o da ida: bancos de couro, luzes azuis tipo de avião no corrdor, música ambiente, extremamente confortável.
Entretanto presico dizer que nunca amei e odiei tanto um banco de couro em toda minha vida, o motivo vocês já vão entender. Entramos no ônibus, achamos tudo muito lindo e, passado o frenesi, comecei a me sentir um pouco mal. Tentei ignorar, porque nunca fui de ter problemas de enjoo em viagens, salvo raras exceções. Só que aquilo foi ficando muito forte, muito forte, muito..... blergh. É, vomitei no ônibus-avião-com-banco-de-couro. Foi horrível porque, além do simples fato de ter passado mal no meio da viagem, a porcaria do ônibus tinha banco de couro, mas não tinha nenhum banheiro pra contar história. Logo descobri como se sentem aquelas pessoas fedidinhas que entram no metrô e percebem todo mundo olhando pro lado, fungando o nariz, tentando entender de onde vem o mau cheiro, enfim. Após o ocorrido, levaria mais uma meia-hora para chegar na próxima cidade em que o ônibus faria uma parada. Foram os 30 minutos mais longos de toda minha existência (ok, não é pra tanto), mas uma hora eles acabaram e o ônibus finalmente parou por 5, veja bem, c-i-n-c-o minutos. Foi o tempo de correr no banheiro horrível da rodoviária de Castelo Branco pra trocar de roupa e tomar um banho de gato com lenços umedecidos (benditos sejam esses lenços que agora me acompanharão para todos os lugares do mundo), e voltar para o ônibus com um pouquinho mais de dignidade.
Então, explicando aquilo de eu ter amado e odiado os bancos de couro: amei porque bastou uma passada de lenço umedecido e o meu banco estava limpo e cheiroso de novo. Odiei porque é no mínimo estranho um ônibus, que vai te guiar por uma viagem de 4h30min, não ter banheiro e fazer apenas uma parada de 5 minutos no meio do caminho. É quase inacreditável, mas, por conta desse meu super imprevisto, senti saudades dos banheiros dos ônibus ai do Brasil. Talvez mais valha um banheiro fedorento na mão, do que um banco de couro vomi****, se é que vocês me entendem.
Apesar do marasmo da vida rural de Rapoula, e do trauma da volta pra Lisboa, a viagem foi muito gostosa. As delícias culinárias da Ruth, o encontro com a neve, as belezas que vimos estrada a fora, e o carinho com que fomos recebidas fizeram tudo valer à pena.